A morte de Jesus não foi o fim da história
A morte de Jesus na cruz é o centro da mensagem cristã sobre a redenção. Mas os Evangelhos apresentam uma série de acontecimentos extraordinários relacionados àquele momento.
Quando Jesus entregou o espírito, algo incomum aconteceu. O véu do templo se rasgou, a terra tremeu, as rochas se partiram e sepulcros foram abertos.
E Mateus registra algo ainda mais impressionante: muitos corpos de santos que haviam morrido ressuscitaram.
Esse é um dos textos mais intrigantes do Novo Testamento.
Quem eram essas pessoas? Quando exatamente ressuscitaram? Elas morreram novamente? Foram para o céu? Por que somente Mateus registra esse acontecimento?
O próprio texto não responde a todas essas perguntas.
Por isso, precisamos distinguir cuidadosamente entre aquilo que a Bíblia afirma e aquilo que podemos apenas considerar como possibilidade.
O momento da morte de Jesus
Mateus relata que, depois de clamar novamente em alta voz, Jesus entregou o espírito.
A morte de Jesus foi seguida imediatamente por uma série de sinais.
Mateus menciona:
- o véu do santuário rasgado;
- um terremoto;
- rochas fendidas;
- sepulcros abertos;
- a ressurreição de muitos santos;
- a entrada deles na cidade santa;
- e sua aparição a muitas pessoas.
Esses acontecimentos aparecem como sinais relacionados à morte de Jesus.
O véu do templo se rasgou
Um dos primeiros acontecimentos registrados por Mateus é o rompimento do véu do santuário.
O véu fazia parte da estrutura do templo e estava relacionado à separação entre os espaços sagrados.
O autor de Hebreus posteriormente utiliza a linguagem do acesso à presença de Deus para explicar a obra de Cristo.
Por isso, o rasgar do véu pode ser compreendido como um sinal profundamente relacionado àquilo que a morte de Jesus estava realizando.
O acesso a Deus não seria mais compreendido nos mesmos termos do antigo sistema sacrificial.
A morte de Cristo aponta para uma nova realidade de acesso a Deus.
A terra tremeu e as rochas se partiram
Mateus também registra um terremoto e o rompimento das rochas.
O terremoto não aparece simplesmente como um detalhe geológico dentro da narrativa.
Ele faz parte dos sinais que acompanham a morte de Jesus.
Logo depois, Mateus fala sobre os sepulcros que foram abertos.
A sequência da narrativa apresenta a morte de Jesus como um acontecimento que abalou não apenas seus discípulos, mas também a própria criação.
Os sepulcros foram abertos
É aqui que chegamos à parte mais incomum da passagem.
Mateus afirma que os sepulcros foram abertos.
Até aqui, alguém poderia imaginar que a abertura dos túmulos estivesse relacionada simplesmente ao terremoto.
Mas o texto continua:
“muitos corpos de santos, que dormiam, ressuscitaram.”
Portanto, Mateus não está dizendo apenas que pedras foram deslocadas ou que túmulos ficaram expostos.
Ele fala de pessoas mortas que voltaram à vida.
Quem eram esses “santos”?
Essa é uma das perguntas para as quais não temos uma resposta definitiva.
Mateus simplesmente os identifica como santos.
O texto não fornece seus nomes.
Não diz quantos eram.
Não informa de quais gerações vieram.
Também não diz exatamente quanto tempo haviam estado mortos.
Por isso, não devemos afirmar que eram Abraão, Isaque, Jacó, Davi ou qualquer outra pessoa específica.
Existem interpretações e conjecturas sobre a identidade dessas pessoas, mas o texto bíblico não nos dá essa informação.
O que significa “santos que dormiam”?
A expressão “dormiam” é uma maneira comum de descrever a morte na linguagem bíblica.
Isso não significa necessariamente que aquelas pessoas estavam apenas inconscientes.
A ideia é utilizada como uma forma de falar sobre aqueles que haviam morrido, especialmente no contexto da esperança da ressurreição.
Assim, quando Mateus fala de santos que “dormiam”, está falando de pessoas que haviam morrido.
Mas quando eles ressuscitaram?
Aqui encontramos uma das questões mais interessantes do texto.
Mateus apresenta a abertura dos sepulcros no contexto da morte de Jesus.
Em seguida, afirma que aqueles que saíram dos sepulcros entraram na cidade santa depois da ressurreição de Jesus.
Isso criou uma discussão entre intérpretes e estudiosos.
Uma possibilidade é entender que os sepulcros foram abertos no momento da morte de Jesus, mas que os santos só saíram depois da ressurreição.
Outra possibilidade é entender a linguagem de Mateus como uma forma resumida de apresentar acontecimentos relacionados à morte e à ressurreição, sem necessariamente oferecer uma cronologia detalhada de cada segundo do episódio.
Estudos acadêmicos recentes continuam discutindo exatamente essa questão. Um artigo publicado no Journal for the Study of the New Testament observa que Mateus apresenta uma espécie de intervalo narrativo: os santos são associados ao momento da morte de Jesus, mas sua saída dos túmulos é relacionada ao período posterior à ressurreição de Jesus.
Jesus ressuscitou primeiro?
Essa pergunta é importante porque o Novo Testamento apresenta Cristo como as primícias da ressurreição.
Paulo chama Cristo de “as primícias dos que dormem”.
Isso significa que precisamos ter cuidado para não imaginar que Mateus esteja ensinando que os santos receberam antes de Jesus a mesma ressurreição gloriosa e definitiva que Ele recebeu.
O texto de Mateus não descreve esses santos recebendo corpos glorificados nem afirma que eles tenham recebido imortalidade.
O que ele afirma é que foram ressuscitados, saíram dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus e apareceram a muitas pessoas.
Portanto, não devemos colocar no texto informações que ele não fornece.
Existe diferença entre essa ressurreição e a ressurreição de Jesus?
Sim, essa distinção é fundamental.
Jesus não simplesmente voltou à vida para posteriormente morrer novamente.
A ressurreição de Jesus é apresentada no Novo Testamento como vitória definitiva sobre a morte.
Os Evangelhos apresentam Jesus ressuscitado aparecendo aos discípulos, e Paulo o apresenta como as primícias daqueles que morreram.
Já Mateus não explica detalhadamente a natureza da ressurreição daqueles santos.
Não sabemos pelo texto se eles receberam corpos glorificados, se voltaram à vida mortal ou se foram imediatamente transformados.
Qualquer afirmação definitiva sobre isso vai além do que Mateus escreveu.
Eles morreram novamente?
Essa é uma das perguntas mais comuns quando estudamos essa passagem.
A resposta honesta é:
A Bíblia não diz.
É possível que tenham voltado à vida como aconteceu com outras pessoas ressuscitadas durante o ministério de Jesus e posteriormente tenham morrido novamente.
Também existem interpretações segundo as quais esse acontecimento teria uma natureza diferente e estaria relacionado à vitória definitiva de Cristo sobre a morte.
Mas Mateus não explica o destino posterior dessas pessoas.
Por isso, devemos resistir à tentação de preencher o silêncio bíblico com detalhes que não foram revelados.
Jesus já havia ressuscitado outras pessoas
O acontecimento de Mateus 27 não seria a primeira vez que alguém morto voltaria à vida no ministério de Jesus.
Os Evangelhos relatam outros episódios.
Jesus ressuscitou a filha de Jairo.
Também ressuscitou o filho da viúva de Naim.
E um dos episódios mais conhecidos é a ressurreição de Lázaro.
Esses acontecimentos, porém, possuem uma diferença importante em relação à ressurreição final apresentada na esperança cristã.
Essas pessoas voltaram à vida dentro da realidade mortal deste mundo.
A ressurreição de Jesus, por outro lado, é apresentada como uma vitória definitiva sobre a morte.
O que significa dizer que eles apareceram a muitos?
Mateus acrescenta que os santos entraram na cidade santa e apareceram a muitas pessoas.
Esse detalhe é significativo.
Não se trata simplesmente de uma experiência privada de alguém que afirmou ter visto uma pessoa morta.
Dentro da narrativa de Mateus, o acontecimento possui caráter público.
Entretanto, novamente precisamos respeitar os limites do texto.
Mateus não informa quem eram essas pessoas que os viram.
Não apresenta seus nomes.
Não registra seus testemunhos individuais.
Não explica como reagiram.
Ele simplesmente afirma que os santos apareceram a muitos.
Por que somente Mateus registra esse acontecimento?
Essa é outra característica interessante da passagem.
O episódio dos santos ressuscitados não aparece nos relatos paralelos da crucificação em Marcos, Lucas e João.
Isso não significa automaticamente que Mateus inventou o acontecimento.
Os quatro Evangelhos não pretendem registrar exatamente os mesmos acontecimentos.
Cada evangelista seleciona acontecimentos e os apresenta dentro de sua própria narrativa.
Mateus possui uma maneira particular de apresentar sinais relacionados à morte de Jesus.
Estudos sobre a passagem observam justamente sua singularidade dentro dos Evangelhos e seu forte significado teológico.
O acontecimento pode ter relação com Ezequiel?
Existe uma possível conexão interessante com Ezequiel 37.
Na visão do profeta, Deus abre sepulturas e traz seu povo para fora delas, utilizando a imagem da restauração da vida.
Mateus também fala de sepulcros abertos e mortos que se levantam.
Por isso, alguns intérpretes entendem o episódio como uma imagem deliberadamente apocalíptica da vitória de Deus sobre a morte.
Essa relação é uma interpretação teológica, e não uma explicação explicitamente fornecida por Mateus.
Ela, porém, ajuda a compreender por que o evangelista coloca o acontecimento junto aos sinais extraordinários da morte de Jesus.
A morte de Jesus abalou o mundo
Existe uma progressão muito interessante na narrativa:
- o céu escurece;
- Jesus entrega sua vida;
- o véu do templo se rasga;
- a terra treme;
- as rochas se partem;
- os sepulcros são abertos;
- mortos são ressuscitados;
- os ressuscitados aparecem a muitas pessoas.
Mateus apresenta a morte de Jesus como um acontecimento de proporções cósmicas.
A morte daquele que estava na cruz não é apresentada como uma derrota definitiva.
Ela é o início da manifestação da vitória de Deus sobre o pecado e a morte.
O centurião também percebeu que algo extraordinário havia acontecido
Depois de narrar os acontecimentos que acompanharam a morte de Jesus, Mateus apresenta a reação do centurião e daqueles que estavam com ele.
Eles ficaram profundamente abalados diante do terremoto e dos acontecimentos que testemunharam.
O centurião declarou que Jesus era verdadeiramente o Filho de Deus.
Assim, o relato conduz o leitor para uma conclusão importante: os sinais relacionados à morte de Jesus apontavam para quem Ele era.
A morte de Jesus foi seguida pelo sepultamento
Depois da morte, José de Arimateia foi até Pilatos e pediu o corpo de Jesus.
José era apresentado como um homem rico e discípulo de Jesus.
Ele colocou o corpo de Jesus em um sepulcro novo, escavado na rocha.
Uma grande pedra foi colocada na entrada.
Mulheres que haviam acompanhado Jesus também observaram onde o corpo foi colocado.
Mateus então apresenta a guarda do sepulcro e a preocupação das autoridades com a possibilidade de os discípulos retirarem o corpo.
Isso prepara o cenário para o acontecimento seguinte.
E então veio a ressurreição de Jesus
Depois do sábado, ao amanhecer do primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ao sepulcro.
Mateus novamente menciona um grande terremoto.
Um anjo aparece e remove a pedra.
O sepulcro está vazio.
Jesus havia ressuscitado.
É nesse momento que a narrativa alcança seu ponto central.
Os acontecimentos extraordinários relacionados à morte de Jesus apontavam para uma realidade ainda maior: a morte não conseguiu permanecer como seu fim.
Os mortos ressuscitados apontam para algo maior
Mesmo que não saibamos todos os detalhes sobre aqueles santos, o significado do episódio dentro da narrativa é poderoso.
Jesus morreu.
O véu se rasgou.
A terra tremeu.
Os sepulcros foram abertos.
E então Jesus ressuscitou.
O tema que atravessa todos esses acontecimentos é a vitória sobre a morte.
Um comentário da série IVP New Testament Commentary entende os santos ressuscitados como uma antecipação da ressurreição final, um sinal associado à vitória que seria manifestada plenamente na ressurreição de Jesus.
Mas não devemos inventar o final da história desses santos
Talvez seja justamente aqui que precisamos ser mais cuidadosos.
A Bíblia não nos conta o que aconteceu com essas pessoas depois de aparecerem em Jerusalém.
Não sabemos seus nomes.
Não sabemos onde moravam.
Não sabemos se morreram novamente.
Não sabemos se foram transformadas.
Não sabemos se foram levadas ao céu.
Não sabemos quanto tempo permaneceram na cidade.
Essas perguntas podem despertar curiosidade, mas a Bíblia não nos fornece as respostas.
Isso também faz parte de uma boa interpretação bíblica: saber quando o texto termina.
O que podemos afirmar com segurança?
Podemos afirmar aquilo que Mateus efetivamente registra:
- Jesus morreu na cruz.
- O véu do santuário se rasgou.
- A terra tremeu.
- As rochas se partiram.
- Sepulcros foram abertos.
- Muitos santos que haviam morrido foram ressuscitados.
- Eles saíram dos sepulcros depois da ressurreição de Jesus.
- Entraram na cidade santa.
- Apareceram a muitas pessoas.
- Jesus posteriormente apareceu ressuscitado aos seus discípulos.
Esses são os elementos fundamentais da narrativa.
O que permanece em aberto?
Também podemos estabelecer claramente aquilo que o texto não informa.
- Não sabemos quem eram individualmente os santos ressuscitados.
- Não sabemos há quanto tempo estavam mortos.
- Não sabemos exatamente quando receberam vida novamente em relação ao momento da morte de Jesus.
- Não sabemos que tipo de corpo receberam.
- Não sabemos o que aconteceu com eles posteriormente.
- Não sabemos quantas pessoas os viram.
- Não sabemos como cada testemunha reagiu.
Reconhecer essas limitações não enfraquece a Bíblia.
Pelo contrário, demonstra respeito pelo texto.
A mensagem central não são os mortos ressuscitados
Esse ponto é fundamental.
É fácil ficar tão impressionado com os santos que ressuscitaram que esquecemos quem está no centro da narrativa.
O centro não são eles.
O centro é Jesus.
Os acontecimentos que cercam sua morte apontam para sua identidade e para o significado de sua obra.
O véu rasgado aponta para uma nova realidade de acesso a Deus.
O terremoto e as rochas partidas demonstram a dimensão extraordinária daquele momento.
Os sepulcros abertos e os santos ressuscitados apontam para a vitória sobre a morte.
E, acima de tudo, a ressurreição de Jesus confirma que a morte não teve a palavra final.
A morte não teve a última palavra
Essa é talvez a principal mensagem que podemos levar desse episódio.
A cruz parecia representar derrota.
Jesus havia sido condenado.
Havia sido humilhado.
Havia sido crucificado.
Havia morrido.
Seu corpo havia sido colocado em um sepulcro.
Mas a narrativa não termina ali.
A terra treme.
Os sepulcros são abertos.
Os mortos são levantados.
E Jesus ressuscita.
A morte que parecia ser o fim transforma-se no cenário em que a vitória de Cristo começa a ser manifestada.
O que isso significa para o cristão?
A esperança cristã não está simplesmente na ideia de que “um dia tudo ficará bem”.
Ela está fundamentada na ressurreição de Jesus.
Paulo apresenta Cristo como as primícias dos que dormem, apontando para uma ressurreição futura daqueles que pertencem a Ele.
Por isso, o episódio de Mateus 27 não deve ser tratado apenas como uma curiosidade bíblica.
Ele faz parte de uma mensagem maior:
Jesus venceu a morte.
E essa vitória sustenta a esperança cristã na própria ressurreição.
Para refletir
- Você já havia percebido que Mateus registra mortos ressuscitando após a morte de Jesus?
- Como você entende a relação entre a morte de Cristo e a abertura dos sepulcros?
- Você consegue distinguir aquilo que a Bíblia afirma daquilo que apenas imaginamos sobre os santos ressuscitados?
- O que a ressurreição de Jesus muda na maneira como você encara a morte?
Uma oração
Senhor Deus,
obrigado porque a morte de Jesus não foi o fim, mas o caminho pelo qual a vitória foi manifestada.
Obrigado porque Cristo morreu pelos nossos pecados e ressuscitou, vencendo a morte.
Ajuda-nos a estudar a tua Palavra com reverência, sem acrescentar ao texto aquilo que ele não diz e sem ignorar aquilo que ele realmente afirma.
Quando enfrentarmos a morte, a perda ou o sofrimento, lembra-nos da esperança da ressurreição.
Que nossa confiança esteja em Cristo, aquele que declarou ser a ressurreição e a vida.
Em nome de Jesus. Amém.
Desafio de hoje
Leia atentamente Mateus 27.50-66 e depois Mateus 28.1-20.
Faça duas listas.
Na primeira, escreva somente aquilo que o texto afirma claramente.
Na segunda, escreva as perguntas que o texto deixa sem resposta.
Depois observe como a Bíblia pode apresentar um acontecimento extraordinário sem responder a todas as nossas curiosidades.
Isso nos ensina uma importante regra de interpretação:
Quando a Bíblia fala, devemos ouvir; quando a Bíblia permanece em silêncio, devemos ter humildade para não inventar respostas.
Frase para destacar:
“A morte de Jesus abalou a terra, abriu sepulcros e foi seguida pela ressurreição; mas o maior milagre ainda estava por acontecer: o próprio Cristo venceria a morte.”